É claramente observável, nesse final dos anos 20 (sec. XXI), o crescimento de ideias nacionalistas, protecionistas e neoliberais ao redor mundo, muitas delas associadas à teorias da conspiração (completamente delirantes) e à negação da verdade/realidade (aquela mensurada pela ciência). Sobre esse ultimo ponto em específico, o livro “a morte da verdade” de Michiko Kakutani é muito frutuoso.
Com base na leitura de alguns autores, tais como o filósofo Jason Stanley, já parece ser possível enquadrar os movimentos citados acima como neofascistas. Mas podemos encontrar maior lapidação conceitual, como no caso do geógrafo David Harvey que descreve tal fenômeno como “protencionismo étnico-nacionalista-autárquico”, em condições ainda piores que as do neoliberalismo que vigorou nas décadas de 80 e 90.
Fato é que, como Waters já mencionara em seus shows, uma onda (tal como o filme “The Wave”) tem tomado conta do globo nos últimos anos e, em meios a tantas análises, um aspecto parece estar ausente nessas aferições: a questão da disseminação espacial veloz de uma mesma narrativa ao redor do planeta, o que chamo carinhosamente de globalização da esquizofrenia social, sem denegrir a patologia psíquica, é claro.

É sabido que a divisão internacional de trabalho coloca países em papeis e situações bem distintas, entretanto, internamente esses países não são homogêneos. Encontramos, por exemplo, dentro dos países semiperiféricos, como o Brasil, regiões super dinâmicas, que se relacionam muito mais com o mundo globalizado do que com as suas regiões vizinhas. Nesse ponto, um paulista pode ter identificação (gostos, moral, costumes, desejos, etc) muito mais profunda com um californiano do que com um amazonense e nem se preocupar com a política destinada aos seus conterrâneos nacionais indígenas.
É nessa questão que quero chegar. A par dessa estrutura já globalizada, as elites regionais se reproduzem (suas proles permanecem nas classes dominantes) e seus filhos passam a absorver imediatamente os valores produzidos em realidades completamente distintas, a quilômetros de distância. Como esse indivíduo pouco dialoga com a realidade profunda do seu próprio país, ele passa a reproduzir internamente (no seu território) os valores externos, sejam eles de vanguarda ou teorias conspiratórias. Nesse sentido, ondas globais ganham velocidade e espraiamento a partir dos países centrais (E.U.A. – Trump, França – Le Pen) em direção aos periféricos e semi (Brasil – Bolsonaro, El Salvador – Nayib Bukele) por intermédio dos nós (cidades globais) e fazendo uso das redes sociais (um dos braços da globalização).
É comum ao buscar qualquer temática nas redes sociais brasileiras (tais como o canal de youtube “Mamãefalei” do atual deputado federal Arthur, ou do grupo “MBL”) a reprodução de discursos delirantes que estão presentes em diversas pontas do globo. Não há nada de original nos nossos canais, apenas repercussão espacial sem consciência crítica, ou quando essa está presente, há considerável limitação cognitiva nas análises.
Essas esquizofrenias coletivas, por sua vez, apresentam sim especificidades em cada espaço que se assentam. No caso do Brasil, há uma mistura de outros países, como afirma o Sociólogo e professor da UFRJ Fréderic Vandenberghe. Diante dessa miscelânea, aqui a luta é contra o inimigo (inventado) chamado de comunismo, ou socialismo, ou marxismo cultural, ou feminismo, ou PT, ou mundialização da economia, ou ideologia de gênero, etc. Já a solução se daria pelo neoneoliberalismo, pelas privatizações, mercantilização e elitização da educação, exacerbação do nacionalismo, flexibilização dos direitos trabalhistas, pela redução do Estado, etc.
Para não concluir, pego esse ultimo exemplo: a redução do Estado para o mínimo possível (educação, previdência, saúde, segurança), o que o nosso presidente chamou carinhosamente de “acabar com o socialismo” em seu “discurso” de posse. Os filhos da elite e da classe média regional, educados (contaminados) por delírios globais conspiratórios, advogam que esse é o caminho para o Brasil. Mas será que eles já entraram em algum bairro pobre da periferia da metrópole fluminense? Em alguma favela sem saneamento e com clínica lotada, sem médico? Em alguma escola com chão imundo, porta e vidros quebrados e sem ventilador? Em algum bairro do Sertão Nordestino em período de seca? Será que fazem ideia do quanto os mais pobres precisam do Estado? O curioso é que os países com maiores IDHs do planeta, são justamente os que apresentam consideráveis atuações dos Estados (de bem estar social), o oposto do mínimo.

Referências bibliográficas:
– https://blogdaboitempo.com.br/2018/08/17/marx-e-o-capital-no-seculo-xxi-uma-entrevista-com-david-harvey/
– David Harvey – A loucura da razão econômica
– Jason Stanley – Como funciona o fascismo.
– Michiko Kakutani – A morte da verdade.
– https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/02/05/Quem-%C3%A9-o-%E2%80%98outsider%E2%80%99-que-vai-agora-comandar-El-Salvador?
– http://br.rfi.fr/brasil/20190206-brasil-tem-volta-da-oligarquia-com-uma-politica-de-extrema-direita-diz-sociologo-da-?fbclid=IwAR0xy9-saSXYfQQ5lPcz9FRWV6Oi-tC9pxP-v70BI71WW4N6eUHgtXMtlKY
– The Wave (A onde) – Filme de 2009
