Centenário de Paulo Freire

Hoje, Paulo Freire, se vivo, completaria seus 100 anos. O autor brasileiro é um dos mais citados e contemplados no ambiente acadêmico mundial e sua obra deixou uma grande contribuição ao campo da pedagogia, compreendida como ferramenta de emancipação e de transformação social e política.

O centenário de Paulo Freire, para além das comemorações, é também um convite para a reflexão crítica (como ele sempre defendeu) acerca da atual situação da educação e do educador no Brasil.

Ao nos confrontarmos com os dados atuais, nos deparamos com uma realidade ainda cruel e insalubre. O educador brasileiro possui o pior salário do “mundo” (segundo estudos da OCDE em amostragem de 40 países), com baixíssimo poder de compra comparado a outros países e outras profissões de ensino superior no próprio Brasil. O professor precisa, no seu trabalho cotidiano em redes públicas de ensino, dialogar com políticas de aprovação automática (implícitas) e produção de dados fictícios (para possíveis usos escusos). Já na rede privada o desrespeito e a exploração são marcas irretocáveis.

Outro caso preocupante diz respeito à reforma (deforma) do ensino médio, que desde de sua aprovação, por medida provisória (com escasso debate e oitiva de pesquisadores em educação) em 2017, tem sido aplicada gradualmente, quase que prenunciando o agravo do caos e da desigualdade no sistema educacional, uma vez que, na prática, a reforma só reforça e amplia a relação de produção do oprimido (abordado na obra de Freire), limitando cada vez mais a ascensão social dos mais pobres por meio da educação. Se já não bastasse toda a precarização funcional e de renda da profissão, o magistério ainda se enquadra no hall de profissões com os maiores índices (crescente) de afastamento por adoecimento psicológico. Segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho, o professor está entre as 10 profissões mais propensas a desenvolver depressão.

Por fim, à guisa de exemplo, nesta terça-feira, dia 21 de setembro, educadores do estado do RJ, que já recebem salários abaixo do piso nacional e que estão há 8 anos sem reposição salarial, observarão o início de mais um processo de possível perda de mais direitos por meio do atual pacote de ajuste fiscal proposto pelo governador Claudio Castro e enviado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Face a todo o quadro de infortúnios aqui descrito, no ano do seu centenário, a obra de Paulo Freire parece nunca ter sido tão atual e urge a sua aplicação.

Referências bibliográficas

Dark: quando o tempo abre espaço pro espaço. (resumão)

*Alerta: esse texto contêm spoilers, é recomendado para quem já assistiu as temporadas 1 e 2 do seriado.

Dark, uma produção original da Netflix, chama bastante atenção desde o seu lançamento e tem conquistado uma legião de fãs. Segundo Marcus Vinícius do portal “tem alguém assistindo?”, a série tem uma média de 8,6 no IMDb (Internet Movie Database), uma base de dados e informações de conteúdos na internet, e sua segunda temporada foi tão bem recebida que o episódio com menor nota tem 9,2 de média, inclusive quatro, dos oito episódios, apresentam 9,8.

A premissa central de Dark não é novidade e nem se sustenta com tanto conforto sobre o crivo científico. A ideia de viagens no tempo já foi largamente explorada por diversas obras na literatura, no cinema e mais recentemente nos videogames, então, o que há de diferente nesse seriado para chamar tanta atenção e atrair tantos adoradores? O peculiar dessa obra (a cereja no bolo) parece se alojar em uma trama que consegue relacionar, incrivelmente, o deslocamento temporal com as relações familiares e sociais dos personagens, o que traz como consequência uma enorme e profunda carga emotiva.

Mapa temporal dos personagens de Dark e suas relações sociais/familiares.

Imagine saber quando seu pai vai morrer e poder encontra-lo antes da morte (no dia do falecimento), ou ainda conhecer seu pai quando criança, antes mesmo de te conceber. Imagine poder visitar diversas épocas (no passado e no futuro) e poder interagir com essas sociedades, seus costumes, estéticas, visão de mundo, é algo deverás fascinante. Imagine saber que sua filha é ao mesmo tempo a sua mãe. Imagine as reflexões de uma mãe que ostenta uma criação rígida para com sua filha, demonstrando insistentemente insatisfação com o cabelo da jovem, e descobre que ela perderá esses fios no futuro, por conta de uma quimioterapia para tratar um câncer. Por fim, imagine encontrar e poder conversar com você mesmo mais velho.

Ao assistir o seriado vários foram os momentos em que me arrepiei e pude sentir a emoção, a dor, a angústia dos personagens. A obra é muito imersiva e a forma como a narrativa é apresentada contribui muito pare gerar em nós as reações esperadas, pois vamos descobrindo aos poucos, as vezes no mesmo momento que os próprios personagens impactados, as surpreendentes verdades por de trás de toda a trama.

Viagens temporais realizadas pelos personagens de Dark

Em Dark temos 5 épocas/anos que correm de forma paralela (1921, 1953/54, 1986/87, 2019/20 e 2052/53), ou seja, aqui o tempo não é linear em sua totalidade, ele funciona em ciclos de 33 anos no qual vários anos correm juntos ao mesmo tempo. Há a possibilidade de se deslocar por esses anos a partir de 4 artifícios: o túnel da caverna, as maletas com as maquinas do tempo, a cadeira do bunker e as partículas de Deus, essa última, inclusive, a de 1921, permite viajar para qualquer data ignorando a prisão dos ciclos de 33 anos.

Tudo nos leva a crer que o presente da série é o ano de 1986, quando ocorre o acidente na usina que gera a possibilidade de viagem no tempo, sendo assim, o ano de 2019 seria o futuro, 2052 futuro distante, 1953 o passado e 1921 o passado distante. Há, por fim, dois grupos que conflitam pelo controle das viagens temporais e das suas consequências. Adam e o Sic Mundos desejam destruir o mundo atual por intermédio de um último ciclo e criar um mundo novo. Por outro lado, Claudia e Jonas tentam consertar e salvar o mundo que já existe.

Passagem do tempo no seriado

A terceira e última temporada estréia sábado (dia 27/06/2020) na Netflix e, de acordo com o seu trailer e o final da segunda, a trama que esteve focada inteiramente no tempo dessa vez abrirá espaço para o espaço. As informações prévias que a obra nos fornece sugerem que além da viagem temporal a trama agora abarcará outro(s) mundo(s) ou universos. Trata-se então não mais apenas de tempos diversos, mas também de espaços diversos, como se já não bastasse os grandes nós histórico e físico que a série traz, agora adiciona-se mais um: o geográfico. Isso parece interessante, não perderei por nada e volto depois para tecer uma avaliação final.

Hospedagem das imagens:

Referências:


Bora invadir outro?

O atual ministro da Justiça do Brasil, André Mendonça, acionou na segunda feira última (15/06/2020) a Lei de Segurança Nacional, oriunda da Ditadura Militar, ao pedir investigação da charge de Renato Aroeira publicada por Renato Noblat que associa Bolsonaro ao símbolo do nazifascimo. Segundo a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), é impossível imputar ao presidente da república aderência ao regime em tela o que configuraria, indubitavelmente, uma falsa imputação sujeita à sansão nos termos da lei.

Charge do Aroeira publicada por Noblat.

Em meio a polêmica, uma questão emerge: será que realmente é impossível associar posturas e ações do atual Presidente da República do Brasil ao subtipo do fascismo denominado nazismo? Segundo Marco Villa, certamente. O historiador brasileiro é um dos defensores mais aguerridos da classificação de Jair como uma figura nazista. Entretanto, para não ficar no nosso quintal, dentro do furacão, tentamos responder a pergunta apelando para dois pensadores não brasileiros dedicados ao estudo e a pesquisa na área, inclusive com publicações de referência sobre características do (neo)fascismo. O que encontramos é que diversos são os elementos passíveis de vincularem nosso presidente, e seu governo, a ideais neofascistas.

Baseado na obra do Filósofo Umberto Eco podemos atribuir ao atual governo federal:

1 – A negação total e absoluta da realidade da conjuntura e da sua profundidade.
2 – O saudosismo de um passado seletivo e principalmente que não viveu.
3 – Se apoiam e são adeptos do conspiracionismo
4 – Se escoram em inimigos conjurados
5 – Tudo em nome de Deus
6 – Desprezo pela educação formal
7 – Radicalismo
8 – A concepção de cidadãos de Bem
9 – O machismo e a misoginia
10 – O ódio pelo ódio
11 – O nacionalismo exacerbado
12 – Um populismo qualitativo
13 – Um princípio de guerra permanente, necessidade de “reagir”
14 – Rechaço do pensamento crítico
15 – Apelo às classes médias frustradas.

Como Funciona O Fascismo - A Política do “Nós” e “Eles” - Saraiva

Já segundo o também filósofo Jason Stanley, 9 pontos parecem ter sido inspirados no nosso excelentíssimo chefe do executivo federal (notem que alguns se repetem comparado ao autor anterior), são eles:

1 – Um passado mítico que precisamos resgatar
2 – Propagandas que invertem as valores e as concepções
3 – O anti-intelectualismo
4 – A irrealidade / conspiracionismo
5 – A hierarquia a partir de um grupo dominante por gênero e etnia (homem branco)
6 – A lei e a ordem como punição para os dissidentes
7 – A vitimização do grupo dominante (racismo invertido ou a dura vida de um empresário, por exemplo)
8 – A tensão sexual e proteção contra degenerados
9 – O trabalho que liberta, que corrige os vagabundos, mas não explora.

Nos parece que o cartunista e o jornalista não terão muita dificuldade no futuro processo a não ser pelo desafio de sintetizar e compilar essas informações a partir de dezenas de declarações e ações comprobatórias oriundas do Governo Federal. O ponto chave, no entanto, é se atentarem a um subtipo específico, o nazismo.

Por fim, vale ainda ressaltar que, para apimentar o embate, horas/dias depois uma onda de indignação tomou conta de outros tantos cartunistas que, em solidariedade, recriaram e reinterpretaram a famosa charge com os seus próprios traços.

Compilado de charges inspiradas na charge do Aroeira.

Referências:

Leitura, magias e prisões.

Livros são mágicos, não há a menor dúvida disso, mas a despeito de toda sua magia e da capacidade mecânica de ler, o analfabetismo funcional, as teorias da conspiração, as fake news e a ausência de pensamento crítico têm configurado hoje, em especial no Brasil, um enorme gargalo social que proporciona a eclosão de gigantescos outros problemas (políticos, culturais, ambientais, etc.).

A leitura tem diversas potencialidades, ela pode iluminar uma mente obscura e transformá-la em luz que iluminará outras mentes. Ela pode transportar um leitor para tempos e espaços outros daquele em que se encontra, Ela exercita nossa capacidade de imaginar o inimaginável, de repensar as fronteiras da existência e de duvidar de muitas certezas. A leitura amplia nossa capacidade crítica e as habilidades necessárias para compreender os fenômenos do mundo e do cosmos. Entretanto, os textos também podem fazer o sentido inverso e aprisionar muitas mentes nas trevas (temos observado isso e de forma cada vez mais evidente), gerando sombras que em efeito cascata, ofuscam novas mentes, algumas dessas talvez não consigam mais sair da caverna, como diria Platão.   

Charge sobre o analfabetismo funcional

Precisamos urgentemente exercitar a nossa capacidade de interpretação. Precisamos ter mais bom senso com o que consumimos e como o consumimos. Precisamos suspeitar mais do que acessamos. Precisamos investigar mais antes de nos conversemos. Precisamos ter mais responsabilidade com o que compartilhamos. Precisamos sempre ler mais, mas, por fim, precisamos também selecionar com mais sabedoria o que escolhemos para alimentar nossas mentes, pois — para além de todas as potencialidades da leitura já citadas aqui, talvez a mais importante é que —, são justamente as boas leituras que nos ajudam a saber distinguir exatamente o que vale a pena ser lido.

Somos o que lemos e como lemos.  

O que a pandemia pode nos ensinar?

A pandemia do COVID-19 parece lançar luz a alguns fatos intrigantes. O consumismo imprudente — aquele que está sempre em busca de construir necessidades humanas artificiais para vende-las — e a globalização capitalista parecem agora biologicamente insustentáveis na ausência de uma verdadeira infraestrutura de saúde pública internacional. Entretanto, essa realidade só pode ser almejada em um mundo onde a saúde deixe de ser concebida como mercadoria e passe, efetivamente, a ser contemplada como um direito humano, tal como prega a declaração universal elaborada em 1948 pela ONU (especificamente o artigo XXV).

Ironicamente (ao menos com a geopolítica atual), as únicas políticas que provavelmente terão êxito daqui a diante, tanto econômica quanto socialmente, são muito mais socialistas do que Sanders propunha nas disputas primárias estadunidense e serão (terão, sem dúvida, que ser e já estão sendo), via de regra, tomadas por talvez os maiores ícones neoliberais do início do século XXI: Trump, Boris Johnson, Jair (resistindo inutilmente) e companhia, justamente para salvar um sistema de acumulação que é, sabidamente pelos mais esclarecidos, insustentável a médio e longo prazo.

Ilustração da pandemia do COVID – 19

A questão, portanto, não é se o capitalismo financeiro — altamente especulativo e dependente cada vez mais da precarização e exploração das classes populares, isso quando não as substitui por novas tecnologias, excluindo-as completamente do processo produtivo e de consumo, o que amplia as desigualdades para patamares nunca vistos antes — vai se esfacelar, mas quando vai, e qual será a natureza (positiva ou negativa) dessa nova forma de produção que dele emergirá ou que ele se transformará.

Esperamos que a atual pandemia (que não seja a primeira de algumas outras ao longo século XXI), amplificada pelo modo de produção capitalista, nos traga, após profundo período de reflexão, mudanças culturais, ambientais, sociais e econômicas consideráveis. Que nossa humanidade volte a ser o centro do sentido da nossa existência. Acho que nunca antes paramos para questionar, efetivamente, o valor da vida (inclusive literal, já que para o atual ministro da saúde do Brasil, um idoso pode ser mais caro do que um jovem, tornando o tratamento inviável) ou até mesmo o valor de um abraço ou um beijo em quem tanto amamos, afinal, o próximo boleto sempre precisa ser pago, não há tempo para se pensar em “besteiras”.

Mas uma vida se resume apenas a códigos de barra? Será que nos damos conta do quanto ficamos ligados em um modo automático sem perceber a vida acontecer? A necessidade de ser produtivo, quase socialmente coercitiva, move uma engrenagem para quem no fim das contas? E quando chegar ao final dessa aventura chamada vida, será que nos orgulharemos (ou arrependeremos) mais das coisas ou dos afetos?

Um casal em Chengdu, China, em 7 de fevereiro de 2020

Referências bibliográficas

Velhos, mas inovadores.

É facilmente perceptível que vivemos em um momento de transição no qual os shows de música se tornaram cada vez menos áudio e mais visuais. São verdadeiros espetáculos luminosos de entretenimento onde as luzes têm roubado cada vez mais a cena e eclipsado os acordes.

Na plateia parece haver uma consonância, pois os milhares de pequenos aparelhos confrontam o palco devolvendo as luzes. Cada pessoa quer ter seus pequenos registros sequenciais do espetáculo mesmo que isso que possa significar não consumir o show, ao menos do ponto de vista imediato e ao vivo.

Festival Tomorrowland – 2019

A estética da música, dos seus palcos e dos seus artistas, os músicos, não é exclusiva do século XXI, longe disso na verdade, entretanto, é nesse século que os contornos passam a ser cada vez mais digitais (explorados por enormes canhões de luz, palcos de led, fogos de artifício, vídeos que interagem com a concerto, etc) e ganham centralidade frente ao próprio som ou a sua qualidade, ritmo, cadência, harmonia e afinação.

Alguns estilos musicais (pop, dance, eletrônico) e faixas etárias (15-35), mais facilmente adaptáveis (seleção audiovisual?), parecem sair na frente na preferência do público que consome tal formato de show e, diante de tal cenário, o que esperar da uma banda de rock dos anos 70, com seus integrantes já com idade avançada e em um festival muito criticado também por manter velharias?

Iron Maiden – Rock In Rio 2019

Certamente a resposta que encontrei ao assistir o show do Iron Maiden no Rock In Rio 2019 foi bem diferente do que supunha. Se a demanda visual é cada vez maior nos atuais shows de música, que tal trazer um visual atrelado à atuação cênica em detrimento da overdose digital? Achei fabuloso. Ah, mas os musicais já fazem isso. Sim, sem dúvida, mas em formato de show de Rock? E em festival de música? E com elementos cênicos e da paisagem voltados para temática tratada em cada música? Isso eu não sei. O que sei é que, mesmo já com idade considerável, o que limita parte da apresentação (o próprio Bruce apresentando dificuldade de acalçar notas), o Iron trouxe um show de rock teatral (já tem feito durante a turnê) e isso possibilitou uma experiência imersiva inovadora, ao menos pra mim. Foi magnífico.

Ganha o mercado. E você?

Cada vez mais nos afastamos de um papel protagonista na geopolítica enérgica global, o que implica em menor desenvolvimento tecnológico e científico interno, menor geração de empregos formais (não precarizados) e perdemos controle sobre um elemento estratégico da soberania nacional territorial, por outro lado avançamos como nunca para nos consolidar como um eterno grande fornecedor de matéria prima, apenas isso.

Ah mas são só as subsidiárias que estão sendo vendidas. Sim, subsidiárias são parcelas, desmembradas por opção logística, da parte central. Nesse caso, desfazer-se das partes é desfazer-se, aos poucos, do todo. Agora a Petrobrás terá que pagar por parte do serviço de distribuição do seu combustível, quando ela já tinha toda a estrutura e frota pronta para tal. Ah, ainda vende por valor simbólico. Te parece lógico?

Imagem relacionada
Manifestação de desagravo dos trabalhadores da Petrobrás frente às políticas privatizantes.

Ser pobre e comemorar o desmonte da sua maior empresa (isso mesmo, ela é sua também) é realmente estar completamente dessituado do que se passa no próprio país e mundo que vive. Problemas de valores de combustível que chegam até a população estão atrelados aos impostos incidentes no produto, à política de preços, ao refino interno, ou seja, movimento completamente oposto ao atual, uma vez que prima pelo investimento e desenvolvimento territorial. Ademais, a quem serve os desmontes das estatais? Acha mesmo que o objetivo será a qualidade de vida da população em detrimento do lucro? Talvez você e o capital internacional, mesmo concordando, tenham objetivos diferentes. Só você não sabe, ainda (assim esperamos, pois seria ainda pior se não fosse).

Torçamos para que não passemos por algo parecido com outros choques do petróleo como nos anos 70 (73 e 79), e que os próximos governos do século XXI consigam retomar o que é do povo.


Referências bibliográficas:

https://journals.openedition.org/confins/17645

http://brazilianjournals.com/index.php/BRJD/article/view/1401

https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/07/24/bovespa-24072019.ghtml

https://www.youtube.com/watch?v=ZIOReHZHe9U


A irrigação agora é com sangue!


É com muito pesar e preocupação que a notícia de que a Comissão de Constituição, Justiça (CCJ) do Senado aprovou nesta quarta-feira (26/06) o projeto de lei que libera a posse de arma em toda a área rural, não só na sede da propriedade, mas em toda a extensão do imóvel, o que, em alguns casos, típicos em país com concentração absurda de terra em maios de poucos, pode significar o tamanho de alguns municípios. Assemelha-se a uma guarda armada de um feudo.

Bandos armados agindo nas áreas rurais.

O texto deve ser analisado ainda nesta quarta-feira (26) pelo plenário da Casa. Se for aprovado, seguirá para a Câmara. Se passar pelo Senado e, posteriormente pela Câmara, a medida, na prática, significará a ampliação das mortes por conflitos de terra no Brasil, incluindo o clássico genocídio indígena, já tão presente desde o século XVI. Mas não só de sangue indígena o campo se enfartará, ataque a acampamentos e movimentos sem terra poderão virar regra e não exceção, seguido da habitual intimidação criminosa feita por parte de grileiros, madeireiros, representantes do agronegócio, mineradores, entre outros.

Mapa elaborado pela Global Witness mostra as regiões com mais mortes de ativistas no mundo - quando mais vermelha a cor, maior o número de casos; Brasil é o destaque
Assassinatos no campo por país em 2017
Fonte: Global Witness

Vale ressaltar que o Brasil hoje possui um dos maiores índices de violência no campo e parte disso decorre de sua história de desigualdade e injustiça no acesso às terras, sempre concentradas nas mãos da elite e da classe média alta. Aliás, os movimentos sem terra são consequência do problema da concentração e não o problema em si. Eles são efeito e não causa. O método utilizado muitas vezes para pressionar o poder público é a ocupação e essa só se dá em áreas que não contemplam o uso social da terra, leia-e, irregulares.

Assassinatos em conflitos no campo de 2003 a 2017 (Foto: Centro de Documentação Dom Tomás Balduino/Comissão Pastoral da Terra)
Assassinatos em conflitos no campo em 2017, de acordo com levantamento da Comissão Pastoral da Terra  (Foto: Centro de Documentação Dom Tomás Balduino/Comissão Pastoral da Terra )

Em suma, a ultima coisa que precisamos é ampliar o problema dos conflitos no campo, que é exatamente o que a tal medida implica. Precisamos, e pra ontem, é mitigá-lo, precisamos de uma verdadeira reforma agrária, do contrário, nossas terras continuarão, e serão cada vez mais, irrigadas com sangue indígena, pobre, de população excluída rural, animais e dos nossos biomas, a exemplo do ano de 2017, record e de assassinato no campo.

Referências bibliográficas:

Da fofura à barbárie

Essa semana, uma inusitada foto rodou o globo pelas redes sociais. Trata-se do registro de um guarda florestal com dois gorilas atrás dele, porém, eretos, em pés.
A imagem foi feita no orfanato de gorilas Virunga National Park, na República Democrática do Congo.

A justifica para a posição dos animais se dá por reconhecerem nos guardas a representação dos pais e, desse modo, buscam imitá-los. A despeito do quão inusitado e fofo a imagem pareça ser, um elemento chama atenção nessa história: o fato dos animais terem sido resgatados ainda bebês. E por que isso ocorreu? Porque seus pais foram assassinados por caçadores.

Diante disso imaginamos imediatamente: que coisa mais barbara. Sim, sem dúvida é, e infelizmente não estamos tão distantes pois já há projeto de lei que busca legalizar a caça no Brasil (PL 6268/2016), ele ainda tramita. Ocorre que a barbárie não acaba por aqui, segundo o jornal O GLOBO, a partir de entrevista com o diretor do parque, “o leste do Congo é alvo de conflitos entre forças do governo e diferentes grupos armados. Alguns desses grupos ocupam áreas do parque florestal e praticam caça ilegal de animais. Por isso, é comum que entrem em confronto com quem trabalha protegendo os animais selvagens que vivem no local.”


Os últimos indígenas americanos da etnia Charrua antes de serem vendidos a um circo francês em 1833. Viviam originalmente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.
Fonte: IELA – UFSC

Ou seja, é comum que guardas ou pessoas que queiram proteger os animais e a natureza, sejam simplesmente executadas por isso. Em outras palavras, seres humanos perdem a vida por lutar pela vida de outros seres, enquanto outros seres humanos tiram a vida de seres humanos para que possam continuar tirando vidas de mais seres. Quem protege a vida, perde a vida, para que alguns prossigam ceifando vidas. Quer coisa mais bárbara que isso? É verdade que isso ocorre no século XXI?

Pensando e analisando com mais calma, vemos que a situação do Congo não parece ser uma exceção, mas ao contrário, uma regra. Em países (semi) periféricos, as milicias e grupo paramilitares fazem uso das ações mais bárbaras e anti civilizatórias possíveis. Nas cidades fluminenses brasileiras são as milícias urbanas que atentam contra a vida da população pobre, quando não narcotraficantes; na região Centro Oeste e Norte do Brasil, são os grupos paramilitares e os próprios policiais (donos de terra, garimpeiros, madeireiros, agronegócio, mineradores) contra os índios, os quilombolas e a floresta. Em Moçambique e na África do Sul são grupos organizados de caçadores contra os rinocerontes e seus protetores, por seus chifres. Na palestina, Israel mata por deuses e territórios sagrados. Na Nigéria e Sudão do Sul, tribos e etnias disputam o poder sem pena de genocídios, por vezes, promovidos apenas pelas diferenças. A China executa tibetanos por protestarem. Isso tudo sem mencionar a Síria, a questão curda, etc.

Resultado de imagem para quem compra os chifres dos rinocerontes
Rinoceronte violentado – Africa do Sul
Fonte: Rolling Stone

Os países em desenvolvimento são definitivamente algozes e reféns de si mesmos. Parecem estar mergulhados em um ciclo sem fim de barbáries, no qual a barbárie inicial (promovida também por forças externas – outros países em um passado e presente exploradores) retroalimenta a barbárie secundária, e assim seguem sem previsão esperançosa de uma solução. Solução essa que não existe sem passar pela expropriação das elites regionais, que ajudam a drenar as riquezas do próprio país em favorecimento da elite global e detrimento das populações mais vulneráveis, uma das fontes da acirramento social que produz as barbáries.

Para concluir, é importante clarificar que esses atos bárbaros não são exclusividades do terceiro mundo (divisão geográfica estipula a partir da guerra fria), o primeiro e o segundo também têm seus diversos casos, assim como participam significativamente na eclosão de tais ações no terceiro mundo, a partir das relações espaciais que estabelecem. Quero dizer que, muitas vezes, a razão de uma ação bestial no terceiro e no segundo mundo nasce por consequência direta (ou indireta) da sua relação espacial com países do primeiro, por exemplo: por que será que os caçadores de Moçambique tanto querem os chifres dos rinocerontes? Pra onde vão? Se transformam em que?

Referências bibliográficas:

Matrix, 20 anos da obra e sua inspiração na filosofia clássica.

Essa semana (mais especificamente 31 de março) o filme hollwoodiano Matrix (o primeiro) completou 20 anos de existência. Além de inovar do ponto de vista da tecnologia e efeitos especias utilizados em filmes, a obra hoje é vista como um clássico e uma das aventuras de ficção científica mais influentes da história.

Matrix carrega em seu enredo ficcional uma série de referências ao existencialismo e à filosofia antiga. Para citar algumas, temos a frase na entrada da casa do Oráculo: “conheça a ti mesmo”, uma alusão direta ao santuário de Apolo na cidade grega antiga de Delfos e a própria existência de um Oráculo, que na verdade é uma mulher, tal como a Sibila, no templo de Apolo.

“Conheça a ti mesmo”

Mais um exemplo é encontrado no personagem Morfeu, que como aponta a mitologia grega, era o nome de um espírito, filho do Sono e da Noite, que possuía asas e era capaz de voar, de forma imediata, de um ponto a outro do mundo e em completo silêncio. Ele podia pousar levemente sobre a cabeça de um humano e carregava uma papoula vermelha com o poder de adormecer e entrar em sonho, com uma forma humana.

No filme Morfeu acessa o personagem Neo de forma sorrateira e silenciosa também, além de indaga-lo se tinha a impressão de estar sempre dormindo, sem nunca ter certeza de estar realmente desperto. Por fim, em vez da papoula, ele utiliza uma pílula vermelha, e nesse caso, ironicamente, a sua função não era adormecer, mas despertar, ou seja, tirar as pessoas do eterno sono dentro da Matrix.

Cena das pílulas
Fonte: Matrix 1999

Mas talvez a mais interessante referência e que norteia toda a obra, seja o mito da caverna de Platão. A alegoria do grego é explorada no filme mediante à dualidade entre a aparência (matrix, sombras da caverna) e a realidade (Zion, exterior da caverna). Há, inclusive, uma menção direta quando Neo, após ser resgatado, questiona a Morfeu porque seus olhos doíam mediante a luz, mesma sensação que assolou o fugitivo da caverna.

O que efetivamente é real? Como se define o real? As sensações que nosso cérebro interpreta são efetivamente a realidade? Ou são apenas parte dela? Ou são apenas uma imagem gerada a partir dela? Qual é a fronteira entra a aparência e a realidade? Há um mundo das ideias além do material? Esses questionamentos filosóficos, mesmo dois milênios depois, ainda nos movem. E você, tomaria a pilula vermelha ou azul? Acha que a sua realidade pode também ser uma matrix? Como saber?

Referências Bibliográficas: