Essa semana, uma inusitada foto rodou o globo pelas redes sociais. Trata-se do registro de um guarda florestal com dois gorilas atrás dele, porém, eretos, em pés.
A imagem foi feita no orfanato de gorilas Virunga National Park, na República Democrática do Congo.
A justifica para a posição dos animais se dá por reconhecerem nos guardas a representação dos pais e, desse modo, buscam imitá-los. A despeito do quão inusitado e fofo a imagem pareça ser, um elemento chama atenção nessa história: o fato dos animais terem sido resgatados ainda bebês. E por que isso ocorreu? Porque seus pais foram assassinados por caçadores.
Diante disso imaginamos imediatamente: que coisa mais barbara. Sim, sem dúvida é, e infelizmente não estamos tão distantes pois já há projeto de lei que busca legalizar a caça no Brasil (PL 6268/2016), ele ainda tramita. Ocorre que a barbárie não acaba por aqui, segundo o jornal O GLOBO, a partir de entrevista com o diretor do parque, “o leste do Congo é alvo de conflitos entre forças do governo e diferentes grupos armados. Alguns desses grupos ocupam áreas do parque florestal e praticam caça ilegal de animais. Por isso, é comum que entrem em confronto com quem trabalha protegendo os animais selvagens que vivem no local.”

Os últimos indígenas americanos da etnia Charrua antes de serem vendidos a um circo francês em 1833. Viviam originalmente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.
Fonte: IELA – UFSC
Ou seja, é comum que guardas ou pessoas que queiram proteger os animais e a natureza, sejam simplesmente executadas por isso. Em outras palavras, seres humanos perdem a vida por lutar pela vida de outros seres, enquanto outros seres humanos tiram a vida de seres humanos para que possam continuar tirando vidas de mais seres. Quem protege a vida, perde a vida, para que alguns prossigam ceifando vidas. Quer coisa mais bárbara que isso? É verdade que isso ocorre no século XXI?
Pensando e analisando com mais calma, vemos que a situação do Congo não parece ser uma exceção, mas ao contrário, uma regra. Em países (semi) periféricos, as milicias e grupo paramilitares fazem uso das ações mais bárbaras e anti civilizatórias possíveis. Nas cidades fluminenses brasileiras são as milícias urbanas que atentam contra a vida da população pobre, quando não narcotraficantes; na região Centro Oeste e Norte do Brasil, são os grupos paramilitares e os próprios policiais (donos de terra, garimpeiros, madeireiros, agronegócio, mineradores) contra os índios, os quilombolas e a floresta. Em Moçambique e na África do Sul são grupos organizados de caçadores contra os rinocerontes e seus protetores, por seus chifres. Na palestina, Israel mata por deuses e territórios sagrados. Na Nigéria e Sudão do Sul, tribos e etnias disputam o poder sem pena de genocídios, por vezes, promovidos apenas pelas diferenças. A China executa tibetanos por protestarem. Isso tudo sem mencionar a Síria, a questão curda, etc.

Fonte: Rolling Stone
Os países em desenvolvimento são definitivamente algozes e reféns de si mesmos. Parecem estar mergulhados em um ciclo sem fim de barbáries, no qual a barbárie inicial (promovida também por forças externas – outros países em um passado e presente exploradores) retroalimenta a barbárie secundária, e assim seguem sem previsão esperançosa de uma solução. Solução essa que não existe sem passar pela expropriação das elites regionais, que ajudam a drenar as riquezas do próprio país em favorecimento da elite global e detrimento das populações mais vulneráveis, uma das fontes da acirramento social que produz as barbáries.
Para concluir, é importante clarificar que esses atos bárbaros não são exclusividades do terceiro mundo (divisão geográfica estipula a partir da guerra fria), o primeiro e o segundo também têm seus diversos casos, assim como participam significativamente na eclosão de tais ações no terceiro mundo, a partir das relações espaciais que estabelecem. Quero dizer que, muitas vezes, a razão de uma ação bestial no terceiro e no segundo mundo nasce por consequência direta (ou indireta) da sua relação espacial com países do primeiro, por exemplo: por que será que os caçadores de Moçambique tanto querem os chifres dos rinocerontes? Pra onde vão? Se transformam em que?
Referências bibliográficas:
- http://conexaoplaneta.com.br/blog/animais-silvestres-em-perigo-projeto-de-lei-libera-caca-no-brasil-tambem-em-unidades-de-conservacao-e-muito-mais/
- https://esporte.band.uol.com.br/noticia/10000098059/china-executa-dois-tibetanos-condenados-por-protestos.html
- https://rollingstone.uol.com.br/noticia/exclusivo-como-o-chifre-de-rinoceronte-se-tornou-substancia-ilegal-mais-cara-do-mundo-e-alimenta-uma-verdadeira-guerra/
- https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/04/22/a-comovente-historia-da-selfie-com-os-gorilas-que-ficam-de-pe.ghtml?fbclid=IwAR3n4pMRKonFAIJi6xfD8_EX7ey2t_nis_4ocUjOHq0NpWb21nJM1meI9PI
- https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2018/08/chifres-de-rinoceronte-de-r-50-milhoes-sao-apreendidos-na-malasia.html











