Livros são mágicos, não há a menor dúvida disso, mas a despeito de toda sua magia e da capacidade mecânica de ler, o analfabetismo funcional, as teorias da conspiração, as fake news e a ausência de pensamento crítico têm configurado hoje, em especial no Brasil, um enorme gargalo social que proporciona a eclosão de gigantescos outros problemas (políticos, culturais, ambientais, etc.).
A leitura tem diversas potencialidades, ela pode iluminar uma mente obscura e transformá-la em luz que iluminará outras mentes. Ela pode transportar um leitor para tempos e espaços outros daquele em que se encontra, Ela exercita nossa capacidade de imaginar o inimaginável, de repensar as fronteiras da existência e de duvidar de muitas certezas. A leitura amplia nossa capacidade crítica e as habilidades necessárias para compreender os fenômenos do mundo e do cosmos. Entretanto, os textos também podem fazer o sentido inverso e aprisionar muitas mentes nas trevas (temos observado isso e de forma cada vez mais evidente), gerando sombras que em efeito cascata, ofuscam novas mentes, algumas dessas talvez não consigam mais sair da caverna, como diria Platão.
Charge sobre o analfabetismo funcional
Precisamos urgentemente exercitar a nossa capacidade de interpretação. Precisamos ter mais bom senso com o que consumimos e como o consumimos. Precisamos suspeitar mais do que acessamos. Precisamos investigar mais antes de nos conversemos. Precisamos ter mais responsabilidade com o que compartilhamos. Precisamos sempre ler mais, mas, por fim, precisamos também selecionar com mais sabedoria o que escolhemos para alimentar nossas mentes, pois — para além de todas as potencialidades da leitura já citadas aqui, talvez a mais importante é que —, são justamente as boas leituras que nos ajudam a saber distinguir exatamente o que vale a pena ser lido.
A pandemia do COVID-19 parece lançar luz a alguns fatos intrigantes. O consumismo imprudente — aquele que está sempre em busca de construir necessidades humanas artificiais para vende-las — e a globalização capitalista parecem agora biologicamente insustentáveis na ausência de uma verdadeira infraestrutura de saúde pública internacional. Entretanto, essa realidade só pode ser almejada em um mundo onde a saúde deixe de ser concebida como mercadoria e passe, efetivamente, a ser contemplada como um direito humano, tal como prega a declaração universal elaborada em 1948 pela ONU (especificamente o artigo XXV).
Ironicamente (ao menos com a geopolítica atual), as únicas políticas que provavelmente terão êxito daqui a diante, tanto econômica quanto socialmente, são muito mais socialistas do que Sanders propunha nas disputas primárias estadunidense e serão (terão, sem dúvida, que ser e já estão sendo), via de regra, tomadas por talvez os maiores ícones neoliberais do início do século XXI: Trump, Boris Johnson, Jair (resistindo inutilmente) e companhia, justamente para salvar um sistema de acumulação que é, sabidamente pelos mais esclarecidos, insustentável a médio e longo prazo.
Ilustração da pandemia do COVID – 19
A questão, portanto, não é se o capitalismo financeiro — altamente especulativo e dependente cada vez mais da precarização e exploração das classes populares, isso quando não as substitui por novas tecnologias, excluindo-as completamente do processo produtivo e de consumo, o que amplia as desigualdades para patamares nunca vistos antes — vai se esfacelar, mas quando vai, e qual será a natureza (positiva ou negativa) dessa nova forma de produção que dele emergirá ou que ele se transformará.
Esperamos que a atual pandemia (que não seja a primeira de algumas outras ao longo século XXI), amplificada pelo modo de produção capitalista, nos traga, após profundo período de reflexão, mudanças culturais, ambientais, sociais e econômicas consideráveis. Que nossa humanidade volte a ser o centro do sentido da nossa existência. Acho que nunca antes paramos para questionar, efetivamente, o valor da vida (inclusive literal, já que para o atual ministro da saúde do Brasil, um idoso pode ser mais caro do que um jovem, tornando o tratamento inviável) ou até mesmo o valor de um abraço ou um beijo em quem tanto amamos, afinal, o próximo boleto sempre precisa ser pago, não há tempo para se pensar em “besteiras”.
Mas uma vida se resume apenas a códigos de barra? Será que nos damos conta do quanto ficamos ligados em um modo automático sem perceber a vida acontecer? A necessidade de ser produtivo, quase socialmente coercitiva, move uma engrenagem para quem no fim das contas? E quando chegar ao final dessa aventura chamada vida, será que nos orgulharemos (ou arrependeremos) mais das coisas ou dos afetos?
Um casal em Chengdu, China, em 7 de fevereiro de 2020
Essa semana, uma inusitada foto rodou o globo pelas redes sociais. Trata-se do registro de um guarda florestal com dois gorilas atrás dele, porém, eretos, em pés. A imagem foi feita no orfanato de gorilas Virunga National Park, na República Democrática do Congo.
A justifica para a posição dos animais se dá por reconhecerem nos guardas a representação dos pais e, desse modo, buscam imitá-los. A despeito do quão inusitado e fofo a imagem pareça ser, um elemento chama atenção nessa história: o fato dos animais terem sido resgatados ainda bebês. E por que isso ocorreu? Porque seus pais foram assassinados por caçadores.
Diante disso imaginamos imediatamente: que coisa mais barbara. Sim, sem dúvida é, e infelizmente não estamos tão distantes pois já há projeto de lei que busca legalizar a caça no Brasil (PL 6268/2016), ele ainda tramita. Ocorre que a barbárie não acaba por aqui, segundo o jornal O GLOBO, a partir de entrevista com o diretor do parque, “o leste do Congo é alvo de conflitos entre forças do governo e diferentes grupos armados. Alguns desses grupos ocupam áreas do parque florestal e praticam caça ilegal de animais. Por isso, é comum que entrem em confronto com quem trabalha protegendo os animais selvagens que vivem no local.”
Os últimos indígenas americanos da etnia Charrua antes de serem vendidos a um circo francês em 1833. Viviam originalmente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Fonte: IELA – UFSC
Ou seja, é comum que guardas ou pessoas que queiram proteger os animais e a natureza, sejam simplesmente executadas por isso. Em outras palavras, seres humanos perdem a vida por lutar pela vida de outros seres, enquanto outros seres humanos tiram a vida de seres humanos para que possam continuar tirando vidas de mais seres. Quem protege a vida, perde a vida, para que alguns prossigam ceifando vidas. Quer coisa mais bárbara que isso? É verdade que isso ocorre no século XXI?
Pensando e analisando com mais calma, vemos que a situação do Congo não parece ser uma exceção, mas ao contrário, uma regra. Em países (semi) periféricos, as milicias e grupo paramilitares fazem uso das ações mais bárbaras e anti civilizatórias possíveis. Nas cidades fluminenses brasileiras são as milícias urbanas que atentam contra a vida da população pobre, quando não narcotraficantes; na região Centro Oeste e Norte do Brasil, são os grupos paramilitares e os próprios policiais (donos de terra, garimpeiros, madeireiros, agronegócio, mineradores) contra os índios, os quilombolas e a floresta. Em Moçambique e na África do Sul são grupos organizados de caçadores contra os rinocerontes e seus protetores, por seus chifres. Na palestina, Israel mata por deuses e territórios sagrados. Na Nigéria e Sudão do Sul, tribos e etnias disputam o poder sem pena de genocídios, por vezes, promovidos apenas pelas diferenças. A China executa tibetanos por protestarem. Isso tudo sem mencionar a Síria, a questão curda, etc.
Rinoceronte violentado – Africa do Sul Fonte: Rolling Stone
Os países em desenvolvimento são definitivamente algozes e reféns de si mesmos. Parecem estar mergulhados em um ciclo sem fim de barbáries, no qual a barbárie inicial (promovida também por forças externas – outros países em um passado e presente exploradores) retroalimenta a barbárie secundária, e assim seguem sem previsão esperançosa de uma solução. Solução essa que não existe sem passar pela expropriação das elites regionais, que ajudam a drenar as riquezas do próprio país em favorecimento da elite global e detrimento das populações mais vulneráveis, uma das fontes da acirramento social que produz as barbáries.
Para concluir, é importante clarificar que esses atos bárbaros não são exclusividades do terceiro mundo (divisão geográfica estipula a partir da guerra fria), o primeiro e o segundo também têm seus diversos casos, assim como participam significativamente na eclosão de tais ações no terceiro mundo, a partir das relações espaciais que estabelecem. Quero dizer que, muitas vezes, a razão de uma ação bestial no terceiro e no segundo mundo nasce por consequência direta (ou indireta) da sua relação espacial com países do primeiro, por exemplo: por que será que os caçadores de Moçambique tanto querem os chifres dos rinocerontes? Pra onde vão? Se transformam em que?
Na geopolítica da economia mundo, não há espaço para a ingenuidade. A subserviência cega às grandes potências diminui imediatamente o poder de competitividade e autonomia de um país. Pouco a pouco o atual governo federal começa a sentir isso.
A China e os EUA se aproximam de um acordo comercial para compra de Soja, o que está emitindo um alerta para os produtores do Brasil. A efetivação do acordo derrubará o preço do produto brasileiro a ponto, inclusive, de emergirem margens negativas para alguns produtores, como afirma Roberto Machado Bortoncello, diretor comercial do Bom Futuro.
“Os produtores do Brasil terão que reduzir custos e melhorar as operações logísticas para enfrentar essa nova dinâmica global do mercado da soja”, segundo Scheffer que cultiva 270.000 hectares de soja no estado do Mato Grosso.
Reunião do BRICs em 2008 com os chefes de Estado da Rússia, Brasil, China e Índia.
O Brasil, no início do século XXI, já foi protagonista nas negociações e trocas comerciais globais. Parte dessa posição se deu a partir da inserção do país no BRICs, boas relações com os países Árabes, diálogos efetivos no G20 (e também G8) e as trocas com a União Europeia através do Mercosul. Esses elementos deram ao país considerável destaque e poderio de barganha no mercado internacional. Foi um período de grande superávit comercial e consequente crescimento do consumo no mercado interno: a chamada era do ouro da Era Lula.
Hoje, com as novas inclinações políticas de se evitar as relações multilaterais em blocos, de supervalorizar interpretações ideológicos equivocadas (como o caso da China lida como um país comunista) e do retorno da dependência aos E.U.A., o Brasil se recoloca em uma posição semelhante àquela dos anos 90, um país com papel altamente periférico na globalização.
Entretanto, há ainda um agravante atual, a falta de conhecimento notória que assumiu a presidência da república os ministérios em 2019. Enquanto o governo insiste em combater fantasmas paroicos, se dispondo a ser tutelado por nações que tem interesses muito claros e nada amigáveis (E.U.A.), nossa população sofrerá os efeitos econômicos imediatamente. O mais curioso é que a paranoia do governo tem aval de parte da sociedade, já contaminada.
Comentário de um usuário na página da Folha de São Paulo
É claramente observável, nesse final dos anos 20 (sec. XXI), o crescimento de ideias nacionalistas, protecionistas e neoliberais ao redor mundo, muitas delas associadas à teorias da conspiração (completamente delirantes) e à negação da verdade/realidade (aquela mensurada pela ciência). Sobre esse ultimo ponto em específico, o livro “a morte da verdade” de Michiko Kakutani é muito frutuoso.
Com base na leitura de alguns autores, tais como o filósofo Jason Stanley, já parece ser possível enquadrar os movimentos citados acima como neofascistas. Mas podemos encontrar maior lapidação conceitual, como no caso do geógrafo David Harvey que descreve tal fenômeno como “protencionismo étnico-nacionalista-autárquico”, em condições ainda piores que as do neoliberalismo que vigorou nas décadas de 80 e 90.
Fato é que, como Waters já mencionara em seus shows, uma onda (tal como o filme “The Wave”) tem tomado conta do globo nos últimos anos e, em meios a tantas análises, um aspecto parece estar ausente nessas aferições: a questão da disseminação espacial veloz de uma mesma narrativa ao redor do planeta, o que chamo carinhosamente de globalização da esquizofrenia social, sem denegrir a patologia psíquica, é claro.
Foto reprodução Youtube.com
É sabido que a divisão internacional de trabalho coloca países em papeis e situações bem distintas, entretanto, internamente esses países não são homogêneos. Encontramos, por exemplo, dentro dos países semiperiféricos, como o Brasil, regiões super dinâmicas, que se relacionam muito mais com o mundo globalizado do que com as suas regiões vizinhas. Nesse ponto, um paulista pode ter identificação (gostos, moral, costumes, desejos, etc) muito mais profunda com um californiano do que com um amazonense e nem se preocupar com a política destinada aos seus conterrâneos nacionais indígenas.
É nessa questão que quero chegar. A par dessa estrutura já globalizada, as elites regionais se reproduzem (suas proles permanecem nas classes dominantes) e seus filhos passam a absorver imediatamente os valores produzidos em realidades completamente distintas, a quilômetros de distância. Como esse indivíduo pouco dialoga com a realidade profunda do seu próprio país, ele passa a reproduzir internamente (no seu território) os valores externos, sejam eles de vanguarda ou teorias conspiratórias. Nesse sentido, ondas globais ganham velocidade e espraiamento a partir dos países centrais (E.U.A. – Trump, França – Le Pen) em direção aos periféricos e semi (Brasil – Bolsonaro, El Salvador – Nayib Bukele) por intermédio dos nós (cidades globais) e fazendo uso das redes sociais (um dos braços da globalização).
É comum ao buscar qualquer temática nas redes sociais brasileiras (tais como o canal de youtube “Mamãefalei” do atual deputado federal Arthur, ou do grupo “MBL”) a reprodução de discursos delirantes que estão presentes em diversas pontas do globo. Não há nada de original nos nossos canais, apenas repercussão espacial sem consciência crítica, ou quando essa está presente, há considerável limitação cognitiva nas análises.
Essas esquizofrenias coletivas, por sua vez, apresentam sim especificidades em cada espaço que se assentam. No caso do Brasil, há uma mistura de outros países, como afirma o Sociólogo e professor da UFRJ Fréderic Vandenberghe. Diante dessa miscelânea, aqui a luta é contra o inimigo (inventado) chamado de comunismo, ou socialismo, ou marxismo cultural, ou feminismo, ou PT, ou mundialização da economia, ou ideologia de gênero, etc. Já a solução se daria pelo neoneoliberalismo, pelas privatizações, mercantilização e elitização da educação, exacerbação do nacionalismo, flexibilização dos direitos trabalhistas, pela redução do Estado, etc.
Para não concluir, pego esse ultimo exemplo: a redução do Estado para o mínimo possível (educação, previdência, saúde, segurança), o que o nosso presidente chamou carinhosamente de “acabar com o socialismo” em seu “discurso” de posse. Os filhos da elite e da classe média regional, educados (contaminados) por delírios globais conspiratórios, advogam que esse é o caminho para o Brasil. Mas será que eles já entraram em algum bairro pobre da periferia da metrópole fluminense? Em alguma favela sem saneamento e com clínica lotada, sem médico? Em alguma escola com chão imundo, porta e vidros quebrados e sem ventilador? Em algum bairro do Sertão Nordestino em período de seca? Será que fazem ideia do quanto os mais pobres precisam do Estado? O curioso é que os países com maiores IDHs do planeta, são justamente os que apresentam consideráveis atuações dos Estados (de bem estar social), o oposto do mínimo.