Dark: quando o tempo abre espaço pro espaço. (resumão)

*Alerta: esse texto contêm spoilers, é recomendado para quem já assistiu as temporadas 1 e 2 do seriado.

Dark, uma produção original da Netflix, chama bastante atenção desde o seu lançamento e tem conquistado uma legião de fãs. Segundo Marcus Vinícius do portal “tem alguém assistindo?”, a série tem uma média de 8,6 no IMDb (Internet Movie Database), uma base de dados e informações de conteúdos na internet, e sua segunda temporada foi tão bem recebida que o episódio com menor nota tem 9,2 de média, inclusive quatro, dos oito episódios, apresentam 9,8.

A premissa central de Dark não é novidade e nem se sustenta com tanto conforto sobre o crivo científico. A ideia de viagens no tempo já foi largamente explorada por diversas obras na literatura, no cinema e mais recentemente nos videogames, então, o que há de diferente nesse seriado para chamar tanta atenção e atrair tantos adoradores? O peculiar dessa obra (a cereja no bolo) parece se alojar em uma trama que consegue relacionar, incrivelmente, o deslocamento temporal com as relações familiares e sociais dos personagens, o que traz como consequência uma enorme e profunda carga emotiva.

Mapa temporal dos personagens de Dark e suas relações sociais/familiares.

Imagine saber quando seu pai vai morrer e poder encontra-lo antes da morte (no dia do falecimento), ou ainda conhecer seu pai quando criança, antes mesmo de te conceber. Imagine poder visitar diversas épocas (no passado e no futuro) e poder interagir com essas sociedades, seus costumes, estéticas, visão de mundo, é algo deverás fascinante. Imagine saber que sua filha é ao mesmo tempo a sua mãe. Imagine as reflexões de uma mãe que ostenta uma criação rígida para com sua filha, demonstrando insistentemente insatisfação com o cabelo da jovem, e descobre que ela perderá esses fios no futuro, por conta de uma quimioterapia para tratar um câncer. Por fim, imagine encontrar e poder conversar com você mesmo mais velho.

Ao assistir o seriado vários foram os momentos em que me arrepiei e pude sentir a emoção, a dor, a angústia dos personagens. A obra é muito imersiva e a forma como a narrativa é apresentada contribui muito pare gerar em nós as reações esperadas, pois vamos descobrindo aos poucos, as vezes no mesmo momento que os próprios personagens impactados, as surpreendentes verdades por de trás de toda a trama.

Viagens temporais realizadas pelos personagens de Dark

Em Dark temos 5 épocas/anos que correm de forma paralela (1921, 1953/54, 1986/87, 2019/20 e 2052/53), ou seja, aqui o tempo não é linear em sua totalidade, ele funciona em ciclos de 33 anos no qual vários anos correm juntos ao mesmo tempo. Há a possibilidade de se deslocar por esses anos a partir de 4 artifícios: o túnel da caverna, as maletas com as maquinas do tempo, a cadeira do bunker e as partículas de Deus, essa última, inclusive, a de 1921, permite viajar para qualquer data ignorando a prisão dos ciclos de 33 anos.

Tudo nos leva a crer que o presente da série é o ano de 1986, quando ocorre o acidente na usina que gera a possibilidade de viagem no tempo, sendo assim, o ano de 2019 seria o futuro, 2052 futuro distante, 1953 o passado e 1921 o passado distante. Há, por fim, dois grupos que conflitam pelo controle das viagens temporais e das suas consequências. Adam e o Sic Mundos desejam destruir o mundo atual por intermédio de um último ciclo e criar um mundo novo. Por outro lado, Claudia e Jonas tentam consertar e salvar o mundo que já existe.

Passagem do tempo no seriado

A terceira e última temporada estréia sábado (dia 27/06/2020) na Netflix e, de acordo com o seu trailer e o final da segunda, a trama que esteve focada inteiramente no tempo dessa vez abrirá espaço para o espaço. As informações prévias que a obra nos fornece sugerem que além da viagem temporal a trama agora abarcará outro(s) mundo(s) ou universos. Trata-se então não mais apenas de tempos diversos, mas também de espaços diversos, como se já não bastasse os grandes nós histórico e físico que a série traz, agora adiciona-se mais um: o geográfico. Isso parece interessante, não perderei por nada e volto depois para tecer uma avaliação final.

Hospedagem das imagens:

Referências:


O que a pandemia pode nos ensinar?

A pandemia do COVID-19 parece lançar luz a alguns fatos intrigantes. O consumismo imprudente — aquele que está sempre em busca de construir necessidades humanas artificiais para vende-las — e a globalização capitalista parecem agora biologicamente insustentáveis na ausência de uma verdadeira infraestrutura de saúde pública internacional. Entretanto, essa realidade só pode ser almejada em um mundo onde a saúde deixe de ser concebida como mercadoria e passe, efetivamente, a ser contemplada como um direito humano, tal como prega a declaração universal elaborada em 1948 pela ONU (especificamente o artigo XXV).

Ironicamente (ao menos com a geopolítica atual), as únicas políticas que provavelmente terão êxito daqui a diante, tanto econômica quanto socialmente, são muito mais socialistas do que Sanders propunha nas disputas primárias estadunidense e serão (terão, sem dúvida, que ser e já estão sendo), via de regra, tomadas por talvez os maiores ícones neoliberais do início do século XXI: Trump, Boris Johnson, Jair (resistindo inutilmente) e companhia, justamente para salvar um sistema de acumulação que é, sabidamente pelos mais esclarecidos, insustentável a médio e longo prazo.

Ilustração da pandemia do COVID – 19

A questão, portanto, não é se o capitalismo financeiro — altamente especulativo e dependente cada vez mais da precarização e exploração das classes populares, isso quando não as substitui por novas tecnologias, excluindo-as completamente do processo produtivo e de consumo, o que amplia as desigualdades para patamares nunca vistos antes — vai se esfacelar, mas quando vai, e qual será a natureza (positiva ou negativa) dessa nova forma de produção que dele emergirá ou que ele se transformará.

Esperamos que a atual pandemia (que não seja a primeira de algumas outras ao longo século XXI), amplificada pelo modo de produção capitalista, nos traga, após profundo período de reflexão, mudanças culturais, ambientais, sociais e econômicas consideráveis. Que nossa humanidade volte a ser o centro do sentido da nossa existência. Acho que nunca antes paramos para questionar, efetivamente, o valor da vida (inclusive literal, já que para o atual ministro da saúde do Brasil, um idoso pode ser mais caro do que um jovem, tornando o tratamento inviável) ou até mesmo o valor de um abraço ou um beijo em quem tanto amamos, afinal, o próximo boleto sempre precisa ser pago, não há tempo para se pensar em “besteiras”.

Mas uma vida se resume apenas a códigos de barra? Será que nos damos conta do quanto ficamos ligados em um modo automático sem perceber a vida acontecer? A necessidade de ser produtivo, quase socialmente coercitiva, move uma engrenagem para quem no fim das contas? E quando chegar ao final dessa aventura chamada vida, será que nos orgulharemos (ou arrependeremos) mais das coisas ou dos afetos?

Um casal em Chengdu, China, em 7 de fevereiro de 2020

Referências bibliográficas

Matrix, 20 anos da obra e sua inspiração na filosofia clássica.

Essa semana (mais especificamente 31 de março) o filme hollwoodiano Matrix (o primeiro) completou 20 anos de existência. Além de inovar do ponto de vista da tecnologia e efeitos especias utilizados em filmes, a obra hoje é vista como um clássico e uma das aventuras de ficção científica mais influentes da história.

Matrix carrega em seu enredo ficcional uma série de referências ao existencialismo e à filosofia antiga. Para citar algumas, temos a frase na entrada da casa do Oráculo: “conheça a ti mesmo”, uma alusão direta ao santuário de Apolo na cidade grega antiga de Delfos e a própria existência de um Oráculo, que na verdade é uma mulher, tal como a Sibila, no templo de Apolo.

“Conheça a ti mesmo”

Mais um exemplo é encontrado no personagem Morfeu, que como aponta a mitologia grega, era o nome de um espírito, filho do Sono e da Noite, que possuía asas e era capaz de voar, de forma imediata, de um ponto a outro do mundo e em completo silêncio. Ele podia pousar levemente sobre a cabeça de um humano e carregava uma papoula vermelha com o poder de adormecer e entrar em sonho, com uma forma humana.

No filme Morfeu acessa o personagem Neo de forma sorrateira e silenciosa também, além de indaga-lo se tinha a impressão de estar sempre dormindo, sem nunca ter certeza de estar realmente desperto. Por fim, em vez da papoula, ele utiliza uma pílula vermelha, e nesse caso, ironicamente, a sua função não era adormecer, mas despertar, ou seja, tirar as pessoas do eterno sono dentro da Matrix.

Cena das pílulas
Fonte: Matrix 1999

Mas talvez a mais interessante referência e que norteia toda a obra, seja o mito da caverna de Platão. A alegoria do grego é explorada no filme mediante à dualidade entre a aparência (matrix, sombras da caverna) e a realidade (Zion, exterior da caverna). Há, inclusive, uma menção direta quando Neo, após ser resgatado, questiona a Morfeu porque seus olhos doíam mediante a luz, mesma sensação que assolou o fugitivo da caverna.

O que efetivamente é real? Como se define o real? As sensações que nosso cérebro interpreta são efetivamente a realidade? Ou são apenas parte dela? Ou são apenas uma imagem gerada a partir dela? Qual é a fronteira entra a aparência e a realidade? Há um mundo das ideias além do material? Esses questionamentos filosóficos, mesmo dois milênios depois, ainda nos movem. E você, tomaria a pilula vermelha ou azul? Acha que a sua realidade pode também ser uma matrix? Como saber?

Referências Bibliográficas:




Qual é o papel da arte?

Em recente coletiva de impressa acerca da estreia do filme Marighella, Wagner Moura (o diretor) afirma ser o filme uma das primeiras obras de arte a estar em contraste com grupo que está atualmente no poder no Brasil. É pra isso que servem os filmes? Talvez, fato é que essa declaração nos leva (eu acho) a uma indagação filosófica: qual é o papel da arte?

Certamente essa não é uma resposta fácil de se encontrar e menos ainda há a intenção aqui de esgotá-la ou servir como discurso de autoridade, mas, antes disso, refletir sobre. A partir da Estética, subcampo da filosofia que se debruça sobre a noção do “belo” e como ele aparece na arte, é possível ter acesso a um debate muito proveitoso para pensar o dilema do título, trata-se da dualidade: arte (autêntica, bela, aura) x cultura de massa (produto industrial).

Foquemos nas características que costumeiramente as definem, para melhor compreendermos essa duplicidade. Uma obra de arte demanda originalidade, sugere-nos apresentar (criar) um olhar novo sobre o mundo, os teóricos costumam dar o nome de “aura” a essa originalidade que torna a obra de arte única. Elas seriam, portanto, possibilidades de leituras originais para a nossa velha forma de ver (e ler) o mundo.

Michelangelo – A criação de Adão – 1510

Outras atribuições que a arte carrega é a necessidade (dada a sua grande expressividade) de pensar o significado, de apurar a sensibilidade, em outras palavras, ela demanda um esforço racional, de interpretação e imaginação, por parte do espectador, para “chegar” à obra e degustar a sua mensagem.

Sobre o que entende-se por suas funções, razão desse texto, advoga-se que a arte deve ser lida como uma forma de conhecimento, conhecimento esse que pode desvendar e revelar realidades ocultas, ou seja, elas educam, elas podem emancipar indivíduos, como diria Paulo Freire. Outra função que se pode lançar mão é a criticidade, as obras de arte costumam ser críticas e, por isso, muitas vezes podem chocar, incomodar, mas não o fazem sem propósito, aliás, a intenção e a mensagem que carregam, são outros elementos que configuram a noção do belo na arte. Quando as obras intencionalmente incomodam, alcançam esteticamente o belo e estão, acima de tudo, cumprindo o seu papel enquanto arte.

Harmonia Rosales – A criação de Adão? – 2017

Por outro lado, a cultura de massa, seria um subproduto banalizado. Pode ser entendida como uma arte em versão simplificada e massificada, um produto industrial produzido em larga escala (em série) para ser consumido velozmente, em pouco tempo e gerar lucro. Alguns críticos inclusive negam o status de arte a essas obras.

Geralmente os produtos da cultura de massa são repetitivos, passageiros, (visto que são consagrados pela moda) e agem como propaganda de marcas, empresas ou até valores e estilos de vida. Essas obras não demandam esforço interpretativo algum, a mente não age, só recebe. Nesse processo, muitas vezes consome-se (perspectivas que criam) ilusões da realidade.

A cultura de massa não obriga a pensar e não pode perturbar, menos ainda chocar, afinal, ela precisa dos consumidores para manter o lucro, e não de apreciadores. Essa arte é vista apenas como diversão e não conhecimento, assim sendo, ela não emancipa, ao contrário, faz o sentido inverso, aliena.

Meios de consumo – o programado é você

A música brasileira atual não seria, hegemonicamente (mas não totalmente), um exemplar perfeito? O hit “o nome dela é Jenifer”, super popular em janeiro, não deve passar abril e se você está lendo isso em outro ano que não 2019, certamente nem deve lembrar o que é isso de Jenifer.

Para não concluir, segundo o professor de Filosofia Pablo Capistrano: “A falta de (….) uma educação estética, condena a grande maioria da população a um estágio de letargia”. Se essa afirmativa for verdadeira, e tudo indica que é, o Brasil parece ter mergulhando de 2013 para cá, na mais profunda inércia cognitiva sensorial; e se isso for verdade, e tudo indica que é, o filme de Wagner Moura certamente incomodará muito; e se isso for verdade, e torço para que seja, significa que essa arte cumpriu o seu papel; e se isso for verdade, e já não há mais como fugir dela, o papel da arte é, entre outros, dar um tapa reflexivo e impregnado de significados na nossa cara.

Referências Bibliográficas: